Durante
muitos anos, lá nos idos mil novecentos e algum ano, eu sonhei percorrer o
caminho de Santiago de Compostela. Antes do livro DIÁRIO DE UM MAGO eu não
sabia o que era peregrinação, no entanto já era caminhante.
Rapazote já imaginava como seria mochilar pela Europa, porém me parecia algo
distante, tanto pelo fator financeiro quanto geográfico. Cresci na área rural
de Limeira D’Oeste, Minas Gerais, meus recursos eram escassos e o mochilão se
tornou daquelas vontades descompromissadas com a realidade, que a gente pensa
um tempo e depois vai cuidar da vida. Vez em quando uma reportagem vencida,
estampando revistas ou jornais aleatórios acordava o sonho e eu voltava a
pensar na aventura, na mochila nas costas e todo um mundo pela frente. Em
seguida a rotina dos dias devorava o sonho e os anos foram passando. Quando me
mudei para São Paulo adquiri outros sonhos; de ser próspero, de ser pai, de ser
escritor, de ser feliz, de ser muita coisa boa nesta vida. Foi na década de
noventa que o livro do Paulo Coelho veio parar em minhas mãos, ali nasceu o
sonho de ser peregrino. Nasceu e ficou do mesmo tamanho por anos. O tempo
passando, novas rotinas fazendo sombra nas vontades, a realidade engolindo
sonhos e adiando a peregrinação. Décadas se passaram! Certa feita eu fui subir
uma escada qualquer e o joelho estalou. Estalou e doeu. Doeu e travou. Eu que
desde sempre percorro trilhas, atravesso matas, subo serras, desço morros,
precisei ficar no sofá uma semana massageando a perna entrevada de dor. Então
me ocorreu que peregrinar pelo Caminho de Santiago corria sério risco de ficar
só na vontade. Nos meus planos, arquitetados em intervalos do meio século de
idade, eu sairia de St Jean Pied de Port, na França e caminharia até Fisterra,
no extremo oeste da Espanha. Quase mil quilômetros! Sempre soube que essa
caminhada pela Europa seria minha maior aventura. Só eu, minhas botas e o que
coubesse na mochila. Uma aventura que renderia ótimas histórias para me gabar
com os amigos e depois contar aos netos. Segui as orientações médicas e a perna
sarou rapidinho. Quando a rotina ameaçava engolir tudo novamente, uma citação
me fez reagir: “um dia é preciso parar de sonhar e, de alguma forma, partir”.
Arrumei a mochila, calcei as botas e parti.domingo, 7 de outubro de 2018
ANTES DE ME GABAR
Durante
muitos anos, lá nos idos mil novecentos e algum ano, eu sonhei percorrer o
caminho de Santiago de Compostela. Antes do livro DIÁRIO DE UM MAGO eu não
sabia o que era peregrinação, no entanto já era caminhante.
Rapazote já imaginava como seria mochilar pela Europa, porém me parecia algo
distante, tanto pelo fator financeiro quanto geográfico. Cresci na área rural
de Limeira D’Oeste, Minas Gerais, meus recursos eram escassos e o mochilão se
tornou daquelas vontades descompromissadas com a realidade, que a gente pensa
um tempo e depois vai cuidar da vida. Vez em quando uma reportagem vencida,
estampando revistas ou jornais aleatórios acordava o sonho e eu voltava a
pensar na aventura, na mochila nas costas e todo um mundo pela frente. Em
seguida a rotina dos dias devorava o sonho e os anos foram passando. Quando me
mudei para São Paulo adquiri outros sonhos; de ser próspero, de ser pai, de ser
escritor, de ser feliz, de ser muita coisa boa nesta vida. Foi na década de
noventa que o livro do Paulo Coelho veio parar em minhas mãos, ali nasceu o
sonho de ser peregrino. Nasceu e ficou do mesmo tamanho por anos. O tempo
passando, novas rotinas fazendo sombra nas vontades, a realidade engolindo
sonhos e adiando a peregrinação. Décadas se passaram! Certa feita eu fui subir
uma escada qualquer e o joelho estalou. Estalou e doeu. Doeu e travou. Eu que
desde sempre percorro trilhas, atravesso matas, subo serras, desço morros,
precisei ficar no sofá uma semana massageando a perna entrevada de dor. Então
me ocorreu que peregrinar pelo Caminho de Santiago corria sério risco de ficar
só na vontade. Nos meus planos, arquitetados em intervalos do meio século de
idade, eu sairia de St Jean Pied de Port, na França e caminharia até Fisterra,
no extremo oeste da Espanha. Quase mil quilômetros! Sempre soube que essa
caminhada pela Europa seria minha maior aventura. Só eu, minhas botas e o que
coubesse na mochila. Uma aventura que renderia ótimas histórias para me gabar
com os amigos e depois contar aos netos. Segui as orientações médicas e a perna
sarou rapidinho. Quando a rotina ameaçava engolir tudo novamente, uma citação
me fez reagir: “um dia é preciso parar de sonhar e, de alguma forma, partir”.
Arrumei a mochila, calcei as botas e parti.terça-feira, 4 de setembro de 2018
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