domingo, 7 de outubro de 2018

ANTES DE ME GABAR

Durante muitos anos, lá nos idos mil novecentos e algum ano, eu sonhei percorrer o caminho de Santiago de Compostela. Antes do livro DIÁRIO DE UM MAGO eu não sabia o que era peregrinação, no entanto já era caminhante. Rapazote já imaginava como seria mochilar pela Europa, porém me parecia algo distante, tanto pelo fator financeiro quanto geográfico. Cresci na área rural de Limeira D’Oeste, Minas Gerais, meus recursos eram escassos e o mochilão se tornou daquelas vontades descompromissadas com a realidade, que a gente pensa um tempo e depois vai cuidar da vida. Vez em quando uma reportagem vencida, estampando revistas ou jornais aleatórios acordava o sonho e eu voltava a pensar na aventura, na mochila nas costas e todo um mundo pela frente. Em seguida a rotina dos dias devorava o sonho e os anos foram passando. Quando me mudei para São Paulo adquiri outros sonhos; de ser próspero, de ser pai, de ser escritor, de ser feliz, de ser muita coisa boa nesta vida. Foi na década de noventa que o livro do Paulo Coelho veio parar em minhas mãos, ali nasceu o sonho de ser peregrino. Nasceu e ficou do mesmo tamanho por anos. O tempo passando, novas rotinas fazendo sombra nas vontades, a realidade engolindo sonhos e adiando a peregrinação. Décadas se passaram! Certa feita eu fui subir uma escada qualquer e o joelho estalou. Estalou e doeu. Doeu e travou. Eu que desde sempre percorro trilhas, atravesso matas, subo serras, desço morros, precisei ficar no sofá uma semana massageando a perna entrevada de dor. Então me ocorreu que peregrinar pelo Caminho de Santiago corria sério risco de ficar só na vontade. Nos meus planos, arquitetados em intervalos do meio século de idade, eu sairia de St Jean Pied de Port, na França e caminharia até Fisterra, no extremo oeste da Espanha. Quase mil quilômetros! Sempre soube que essa caminhada pela Europa seria minha maior aventura. Só eu, minhas botas e o que coubesse na mochila. Uma aventura que renderia ótimas histórias para me gabar com os amigos e depois contar aos netos. Segui as orientações médicas e a perna sarou rapidinho. Quando a rotina ameaçava engolir tudo novamente, uma citação me fez reagir: “um dia é preciso parar de sonhar e, de alguma forma, partir”. Arrumei a mochila, calcei as botas e parti.